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Machado de Assis: a anatomia do cotidiano que nunca envelhece

Machado de Assis permanece vivo não porque está nos livros escolares, mas porque, ao abrir qualquer uma de suas páginas, ainda encontramos o retrato mais fiel.

Capa: Machado de Assis: a anatomia do cotidiano que nunca envelhece

Muitas vezes, ao falarmos de Machado, recorremos ao adjetivo “gênio” como um escudo, distanciando-o de nós. No entanto, o que torna a obra de Machado tão vital para a Muta Editora, e para qualquer um que tente compreender a formação social brasileira, não é a sua genialidade quase inalcançável, mas a sua capacidade de observar, tal como os antropólogos, o cotidiano.

Machado não contava apenas histórias; ele realizava quase uma etnografia da alma brasileira.

Através da ironia, ele escancarou as máscaras sociais, as hierarquias de poder e a fragilidade das convenções sociais. Em seus romances e contos, o indivíduo nunca está sozinho; ele está sempre em diálogo (ou em conflito) com a dinâmica social do seu contexto.

É impossível falar de Machado sem enfrentar a questão da sua própria identidade.

Por muito tempo, a historiografia oficial e o cânone literário tentaram ignorar (ou esconder) a sua negritude, retratando-o em um embranquecimento que servia apenas para apaziguar o desconforto das elites.

Reconhecer Machado como um homem negro é fundamental para entender a profundidade da sua ironia: ele escreveu de dentro de uma sociedade que tentava negá-lo, fazendo de sua literatura também um reflexo das fissuras e contradições do Brasil.

Ao reler Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas, não encontramos apenas literatura, mas também o exercício de uma escuta atenta. Machado nos ensina que, para entender um povo, é preciso olhar para o detalhe, para o silêncio entre as frases e para a contradição humana.

Hoje, prestamos homenagem não apenas ao escritor, mas ao observador.

Machado de Assis permanece vivo não porque está nos livros escolares, mas porque, ao abrir qualquer uma de suas páginas, ainda encontramos o retrato mais fiel — e, por vezes, mais desconfortável — de nós mesmos.

Editorial Texto do conselho editorial da Muta Editora.